Entre lutas e bordados, as mulheres Retireiras do Araguaia

Juliana Evangelista Silva vive na comunidade Retireiros e Retireiras do Araguaia, que busca há mais de 40 anos a regularização do território e a garantia de permanência para um convívio em harmonia com o meio ambiente

Acompanhando o vai e vem das águas do rio Araguaia, na área de transição entre os biomas Cerrado e Amazônia, a comunidade Retireiros e Retireiras do Araguaia na região de Luciara (MT), vive há mais de 40 anos na luta pela regularização do território. É o que nos conta Juliana Evangelista Silva, Retireira do Araguaia, engenheira de Produção Agroindustrial, professora de Matemática e especialista em Direitos Humanos e Garantias Fundamentais. Na comunidade, ela coordena o projeto “Retireiras do Araguaia e os saberes tradicionais do bordado: tecendo o protagonismo socioprodutivo das mulheres”.

Neta e filha de Retireiros, Juliana relata o processo de fortalecimento das mulheres no território. Pela ideia de que somente os homens trabalham diretamente na lida com o gado, muitas não se reconheciam como integrantes da comunidade tradicional. Foi no passar dos anos que as mulheres Retireiras se apropriaram dessa identidade, se unindo pela luta social. Com a iniciativa do bordado, as Retireiras e a comunidade saem fortalecidas tanto pela via do empreendedorismo quanto pelo processo de resistência.

Ser parte da comunidade Retireiros e Retireiras do Araguaia significa, compartilha Juliana, viver de uma forma alternativa, de um modo que não agrida o meio ambiente. “A gente usa pastagens naturais e, de acordo com o clima, de acordo com o vai e vem das águas, vamos construindo nossa história”, diz.

O nome vem do que parece mesmo. É do ato de retirar o gado do pasto na cheia do rio Araguaia que se batizaram os Retireiros e as Retireiras. A água entra nos lagos e inunda parte do território, então os animais são movidos para a parte mais alta. No meio do ano, época da seca, o rio volta para o percurso normal e a comunidade leva o gado de volta para as áreas de retiro. Gado que é criado por meio do trabalho coletivo, solto, sem cercas – mas que vem, ultimamente, se esbarrando nelas.

No território de Retireiros e Retireiras, o trabalho com o gado no Rio Araguaia (Foto: Arquivo)

“A água, para o Retireiro, é nossa identidade. Foi ela que deu o nome de Retireiro. Nós somos muito próximos da água. Não é só algo pensando em produção, mas a água ela vai trazer essa vitalidade, tanto da nossa identidade Retireira, nesse processo de vai e vem, nesse balançar da água, que nós vamos dando continuidade à nossa vida. Uma hora nós leva o gado pra parte alta do território, outra hora nós traz ele de volta, retoma para a área dos retiros, isso significa o ser Retireiro. Então, se não tiver água… para você ter uma ideia, quando chega o mês de maio, até os animais, se o retireiro não for lá no pasto buscar eles, eles correm e voltam para a parte baixa, área dos varjões. Eles já aprenderam essa dinâmica. Por isso, o conflito com a água é muito forte, se ela está cercada, é como cortar um membro do nosso corpo, onde todos tinham acesso e era de fato livre. A água é nossa vida, é a produção, é o nosso peixe, sem a água não existiria o Retireiro, não existiria nem o nome da nossa comunidade. Além de ser vital para nossa vida, ela é vital para nossa identidade”, conta Juliana.

Tendo passado por momentos de ameaças no passado, com risco de morte a lideranças, áreas da comunidade invadidas e casas queimadas, carros também incendiados, lembra a Retireira, hoje a luta pela permanência no território se soma à luta contra a especulação por arrendamento de terras para o agronegócio. As cercas vão chegando dentro do território e diminuindo cada vez mais um espaço que era de vivência dos Retireiros e das Retireiras. Dependendo da atividade desenvolvida nessas regiões invadidas, o risco que já atinge a qualidade de vida de quem ali mora se amplia para alterar a qualidade do ar e da água. Como uma bola de neve, esses impactos passam a afetar não só a comunidade, mas se multiplicam em escala com a contaminação do ar e a água que são consumidos por todas as pessoas ao redor. Isso sem falar no que essa interferência vai significar para os animais e as plantas que também fazem parte desse ciclo de vida da sociobiodiversidade.

Os ciclos da vida da comunidade se integram ao ciclos do Araguaia (Foto: Arquivo)

“A ameaça maior ao nosso modo de vida são as cercas, porque como o gado é criado em pasto nativo e solto, as cercas impedem eles circularem naturalmente, e as pessoas começaram a cercar locais que davam acesso à água pro gado beber. Já estão de olho em áreas do nosso território e a gente sabe que isso traz o envenenamento dos rios. A fauna está ameaçada e nossa flora também. Como já foi feito um estudo que o modo de vida dos Retireiros não briga com o meio ambiente, porque nós utilizamos paisagens nativas, não jogamos veneno, nós lidamos com a natureza, porque ali tem o remédio pro gado, tem o remédio pra nós, é uma relação muito íntima com o nosso território. Aí quando chega pessoas que não tem essa visão, vão querer trazer trator, gradear, fazer pastagens convencionais. Já estão invadindo e cercando áreas dentro do nosso território. E nós estamos numa área de transição do Cerrado para o plano amazônico, então o que é uma vez tirado, não volta. Tiram até a raiz. O Cerrado é uma floresta de cabeça pra baixo, primordial à água, uma vez tirado, perde nossa medicina natural, perde tudo. É uma ameaça à vida como um todo”, afirma Juliana.

Em parceria com organizações e projetos de valorização e reconhecimento de povos e comunidades tradicionais, é que surge o esperançar no futuro. A luta do dia a dia, por vezes árdua, não pode deixar de oferecer um alento na caminhada, lembra a Retireira. Nesse sentido, o apoio uns aos outros se faz essencial, sabendo com quem contar e quem está do lado para seguir em frente. Para a comunidade, conta ela, estar no mapa oferece esse apoio como um reforço que contribui com a visibilidade nacional e internacional dos Retireiros e Retireiras do Araguaia, e com a busca pela garantia de direitos.

Na cheia, o Rio chega na porteira (Foto: Arquivo)

A mensagem que Juliana transmite é a seguinte:

“Eu espero que essa história seja vista tanto pelas pessoas que moram aqui, quanto pelos nossos gestores a nível nacional, estadual, mundial, todas as esferas, para garantir a gente dentro do território. Dar essa garantia, porque nós vamos estar preservando nosso meio ambiente, nossa fauna, nossa flora. Toda a comunidade luciarense ganha com isso e, principalmente, o mundo. Preservando a vida, que é o mais importante. Eu acho que o Tô no Mapa é também uma ferramenta que cumpre esse papel social de fortalecer essa luta, que vem contrapor o que tá exposto por aí, por um modelo de produção voltado para as pessoas, que é a agricultura familiar, a agroecologia. Com alimentos orgânicos na nossa mesa, para a gente saber o que tá consumindo. Um modelo que valoriza a vida e não que aprisiona a vida, não que vai matar a vida. Um modelo voltado às pessoas, que valoriza nossa história, nossa identidade e o trabalho coletivo que é a agricultura das famílias”.

E a Retireira do Araguaia faz um convite a lideranças de territórios tradicionais. Clique para assistir!

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