Em parceria com a Malungu, Tô no Mapa amplia cadastros e automapeamento de comunidades quilombolas na Amazônia

Técnicos quilombolas participaram de capacitação e mapearam 52 comunidades no Pará

Técnicos quilombolas participaram de capacitação e mapearam 52 comunidades no Pará

“O território não é um lugar onde a gente mora. É um lugar onde a gente é”. O pensamento do educador, escritor e líder quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, é um convite para refletirmos sobre o chão onde habitamos e o senso de pertencimento. Para existir, é preciso visibilidade (concreta e simbólica) e legitimação: a oportunidade de dizer “nós existimos e vivemos aqui” é um dos primeiros passos na busca pelo reconhecimento social de comunidades tradicionais.

Para quilombolas e outras comunidades tradicionais, o conceito de “território” extrapola os limites da geografia e do espaço físico. O território é entendido também como espaço de ancestralidade, resistência e preservação dos saberes culturais, sociais, religiosos, tradicionais  e modos de vida.

Com o desafio de conciliar essa visão de “território vivo” e a necessidade de coletar dados técnicos e informações para apoiar os processos de regularização fundiária, a iniciativa Tô no Mapa se reuniu em parceria com a Malungu, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará. “Malungu”, termo de origem africana que significa “companheiro de travessia”, simboliza a trajetória de luta da organização, atuando lado a lado pela garantia de direitos das comunidades quilombolas do Pará, da Amazônia e do Brasil.

Reconhecimento territorial e automapeamento

Entre as frentes da Malungu, a organização atua pelo cumprimento do direito ao território, garantido pela Constituição Federal. A parceria com o Tô no Mapa, por meio de atuação junto ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e ao Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), desponta como ferramenta na luta pelo reconhecimento institucional e demarcação territorial dos quilombos. 

Para Lidiane Vilhena, integrante do Núcleo de Ação e Resistência Quilombola de Campina, Ilha do Marajó (PA),  o automapeamento do território é uma peça importante para a garantia do direito ao título coletivo. “Fazer esse trabalho com a comunidade, em que eles dizem onde começa e termina o território, identificando locais importantes, áreas de conflitos e áreas sagradas e de proteção, só reforça a relação que se tem com o próprio território, como forma de proteção e cuidado”, comenta.

Ao todo, os técnicos quilombolas capacitados pelo Tô no Mapa junto à Malungu realizaram o automapeamento de 52 comunidades quilombolas em 26 municípios do Pará, nas regiões da Ilha do Marajó, Guajarina, Tocantina, Nordeste paraense e Baixo Amazonas. Algumas dessas comunidades quilombolas não constavam em mapas, o que até então dificultava o acesso e garantia a alguns direitos básicos, como políticas públicas e proteção territorial.

As oficinas de cadastramento foram um período intenso de convivência, aprendizados e troca de saberes para fortalecer a luta por reconhecimento e regularização.  “Selecionamos aquelas comunidades que ainda não tinham nenhum trabalho de mapeamento”, conta Lidiane. Entre os desafios que retratam a complexidade e vulnerabilidade territorial no Pará, a exemplo de Salvaterra, no Marajó, estão a sobreposição territorial, as invasões, os conflitos armados e a extração de minérios. Esses problemas se agravam ainda mais por conta da ausência de título, por isso o foco foi apoiar as comunidades que estão no início do processo de titulação.

Escuta sensível e troca de saberes

Além do mapeamento em si, algumas oficinas também se transformaram em espaços de assessoria jurídica e administrativa para as comunidades. Na percepção da Malungu, a escuta sensível e a troca de saberes foram de extrema importância para conduzir a parceria com o Tô no Mapa e a coleta de dados com as comunidades.

Lidiane Vilhena, que também é mestranda em Antropologia e educadora social, aponta que os encontros foram importantes porque neles participavam pessoas que de fato conheciam os territórios e também aqueles que apenas moram nele. “Nesse processo, o saber é repassado de forma que outras pessoas passam a conhecer mais. Isso faz com que esse conhecimento seja multiplicado e valorizado principalmente pelos jovens, que futuramente serão os responsáveis por levar o conhecimento sobre território para as próximas gerações”, reflete a educadora.

“Quando falamos em territórios, estamos falando de um lugar ancestral e sagrado. Estamos falando de nossa vida e casa, lugar que nos remete ao passado, presente e futuro. Onde preservamos nossas culturas, valores, um lugar em que temos o sentimento de pertencimento, e isso é o que nos motiva a lutar para que esse território seja titulado e salvaguardado, não somente para o hoje, mas para todo o sempre”. – Lidiane Vilhena, integrante do Núcleo de Ação e Resistência Quilombola de Campina, Ilha do Marajó (PA)

A parceria da Malungu com o Tô no Mapa foi muito bem aceita nos territórios, de acordo com Lidiane. “As comunidades conseguiram se ver no mapa, conseguiram visualizar tudo o que tem nos territórios. E isso só fortalece ainda mais o sentimento de pertença, fazendo com que cada vez mais cada comunidade quilombola, por meio de sua associação, busque o título coletivo e assim garantir a manutenção do mesmo”. Ela conta que outras comunidades estão na expectativa do automapeamento, para que tenham mais um instrumento de apoio à luta pelo reconhecimento de seus territórios. Para conhecer mais sobre a atuação da Malungu, acesse o site oficial.

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